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terça-feira, 29 de novembro de 2016

O aleijado da fazenda - Causo de Galpão

Havia na estância da Timbaúva, no Rosário, um cemitério de campanha abandonado. Era mui antigo, todo cercado de pedras. Moradia de lagartos e tatus-peludos, que ali faziam suas tocas. Ficava no fundo de uma invernada. Ninguém ia lá. Na estância tinha um peão aleijado. Num aparte de rodeio levou uma rodada braba. Ficou paralítico. O dono da estância, um velho por nome Tibúrcio, deu-lhe o galpão para morar e bóia para o resto da vida. O aleijado se arrastava no galpão, apoiado num pau de mato com feitio de muleta. Fazia fogo e cevava mate para a peonada. Saía no pátio com muita dificuldade; só para as necessidades, meio que se arrastando.

 Duma feita chegaram uns birivas de Cima da Serra, vendendo erva numas bruacas em lombo de mulas. Pediram pouso e se acomodaram no galpão. O chefe da comparsa era mui falante. Viu o aleijado e falou: - O senhor nunca tentou se curá? O aleijado respondeu: - É, seu! Não vê que não tem cura, não é? – Não tem cura de dotor, mas de benzedura... O aleijado se animou. – O senhor conhece alguma? – Se conheço? É um porrete! Não tem cemitério perto? – Tem. Fica na invernada do fundo. – E a distância? – Uma meia légua, mais ou menos. – Bueno! O senhor tem que ir no cemitério à meia-noite, numa sexta-feira. Da porta do cemitério conta sete passos. Na primeira sepultura que topá reza treis padre-nosso e treis ave-maria. É como tirá com a mão! Garanto que vai caminhá. 

O aleijado ficou assuntando, esperançado. Depois falou: - Podem me levá na carrocinha da pipa. É que eu não posso andá. – Não – disse o biriva -, de acavalo ou carroça não pode. Tem que ir andando ou outro pessoa levá de a pé. Saltou um índio grande, mui disposto, com fama de forçudo e valente, que se chamava Manecão. – Tchê! Não tem perigo. Eu te levo na cacunda, na primeira sexta-feira. Fiou tudo acertado. 
Nesse meio tempo andavam roubando ovelha na estância. O velho Tibúrcio tinha comprado uma canonada mui gorda, para munício. Estavam encerrados numa invernadinha, perto do cemitério velho. Tudo bem fechado. Cadeado com corrente na porteira. Aramado novo, de lei, com oito cordas, mais esticadas do que prima de guitarras. O diabo é que faltavam dois ou três capões por semana. O velho mandava rondar: não pegava. Mas tavam roubando! A entrada da estância também a sete chaves. Não tinha rastro. Ninguém entrava a cavalo de noite. Tinha que ser gente! Mas quem? Era um mistério. E o roubo continuava. O causo era que um casal é que roubava do velho Tibúrcio. Como? Simples. O homem e a mulher, de noite, entravam na estância a pé; se acoitavam no cemitério. A mulher ficava escondida. O homem pulava a cerca da invernadinha, agarrava um capão à unha, trazia no lombo para o cemitério; e ali carneavam. Botavam numa bolsa e enterravam o pelego nas covas dos tatus; se mandavam para o rancho. Nunca ninguém ia descobrir! 

Nesse meio tempo chegou a sexta-feira. Noite escura como breu; não se enxergava nem a ponta do nariz. O Manecão, conforme o prometido, agarrou o aleijado, botou na cacunda e se tocou para o cemitério. Nessa noite, por um acaso, o casal foi roubar mais um capão. Chegaram ao cemitério; e, como sempre, a mulher se escondeu atrás de um túmulo. O homem foi agarrar o capão, na invernadinha. Nesse entre tempo chegou o Manecão, com o aleijado no ombro. A mulher pensou que fosse o marido com o capão; saiu de repente de trás do túmulo, com um vestido branco e falando com uma voz meio cavernosa. Meteu a mão na bunda do aleijado (pra quem não sabe para saber se o capão é gordo pega-se no tronco do rabo) e disse:

 - É gordo, né meu veio! 

Pra quê! O Mancecão largou o aleijado de golpe do chão e saiu direito à estância que era uma bala. Quando chegou no galpão, com a língua de fora e os olhos arregalados, deu de cara com o aleijado que já estava lá e já tinha tomado uns dois ou três mates, para acalmar a tremedeira. Diz que cruzou arame de seis fios no peito e correu na flor d’água do açude; que o milagre se fez e ele ficou curado, pra sempre!

Fonte: Bombacha Larga.

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